Viver e produzir na floresta, o sonho de Chico Mendes e seus companheiros

Autor: Arison Jardim

Foto: Sérgio Vale

Passaram-se 30 anos da morte de um dos símbolos da cultura acreana. Em 1988, o seringueiro Chico Mendes foi assassinado por lutar junto de companheiros e familiares pelo sonho de viver bem na floresta acreana. Passados quase 20 anos da gestão da Frente Popular no governo do Estado, o Acre está mostrando que o caminho traçado pelo líder seringueiro é a porta de um futuro sustentável e digno para as sociedades amazônicas.

Sua história é a própria imagem da construção social do Acre, com a chegada traumática de brasileiros às florestas amazônicas, conflitos com os povos originários e luta de uma gente pela vida, pela terra e pela formação de um território com identidade própria. Uma das mensagens de Chico era a união dos povos, mostrando que nordestinos e índios eram vítimas da mesma força do capital, dos mesmos patrões e a inexistência de um governo que lhes desse atenção.

“Por mais de 100 anos, o seringueiro nunca teve o direito de ir a uma escola. O nosso ABC, com nove anos de idade, era pegar numa lâmina e aprender a cortar a seringueira para ajudar nossos pais e a produção de borracha do patrão”, afirmava o sindicalista. A partir de uma de suas últimas palestras, proferida em 1988 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), é possível ter um retrato de sua luta naquele momento, que já vinha sendo traçada há anos.

Ao ganhar o prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU), Papel de Honra Global 500, entre 1987 e 1988, Chico mostrou para o mundo o conflito que ocorria no Acre até aquele momento, com a expulsão de milhares de seringueiros de suas terras, de suas casas onde viviam há mais de 50 anos, por vezes. Até aquele momento, o sindicalista Wilson Pinheiro já havia sido assassinado em Brasileia, também por estar à frente da luta dos trabalhadores rurais.

Chico seria o próximo a ter o sangue derramado, mas em sua fala o medo não tinha vez, apenas a esperança de que seus ideais dessem uma vitória para os moradores da floresta. “Nós não tememos a morte, porque se matam um de nós, temos cem, duzentas, trezentas lideranças para tocar o trabalho para a frente. Hoje tem milhares de Chico Mendes e outros companheiros”, afirmou.

O objetivo em suas falas, em sua mensagem ao mundo era que cada um que ouvisse sensibilizasse outras pessoas “nesta grande causa que nós defendemos. Pois a Amazônia é uma questão que interessa a todo segmento da sociedade brasileira”. Ao pontuar, de forma objetiva, a visão de sua gente para a vivência nas matas, Chico Mendes explicava o conceito de criação das Reservas Extrativistas, modelo de gestão territorial criado naquela época por diversos companheiros da sociedade que conheceram a luta dos seringueiros.

“Nós não queremos transformar a Amazônia em um santuário, o que não queremos é ela devastada. Por isso, além da luta pela defesa da floresta, começamos a apresentar uma proposta alternativa para conservação da Amazônia”, dizia. A antropóloga Mary Allegretti, que teve papel importante de apoio aos seringueiros, explica que este grupo específico de moradores das florestas “formularam uma política específica de reforma agrária e proteção ambiental, as Reservas Extrativistas, depois de mais de dez anos de confrontos em torno da terra e dos recursos naturais*“.

Para ela, “Chico teve a percepção que a floresta tinha um valor que nem o estado, nem a academia prestava atenção. O seu legado é que essas ideias viraram políticas públicas”. O tamanho da batalha enfrentada pelos seringueiros entre as décadas de 1970 e 1980, pode ser mensurada pelos números que o líder citou em sua palestra: mais de 10 mil famílias que estavam vivendo em 60 mil hectares foram afetadas. Na região do Alto Acre, mais de 180 mil árvores de seringueiras e 80 mil castanheiras foram destruídas pelo fogo e desmatamento.

O objetivo em suas falas, em sua mensagem ao mundo era que cada um que ouvisse sensibilizasse outras pessoas “nesta grande causa que nós defendemos. Pois a Amazônia é uma questão que interessa a todo segmento da sociedade brasileira”. Ao pontuar, de forma objetiva, a visão de sua gente para a vivência nas matas, Chico Mendes explicava o conceito de criação das Reservas Extrativistas, modelo de gestão territorial criado naquela época por diversos companheiros da sociedade que conheceram a luta dos seringueiros.

“Nós não queremos transformar a Amazônia em um santuário, o que não queremos é ela devastada. Por isso, além da luta pela defesa da floresta, começamos a apresentar uma proposta alternativa para conservação da Amazônia”, dizia. A antropóloga Mary Allegretti, que teve papel importante de apoio aos seringueiros, explica que este grupo específico de moradores das florestas “formularam uma política específica de reforma agrária e proteção ambiental, as Reservas Extrativistas, depois de mais de dez anos de confrontos em torno da terra e dos recursos naturais*“.

Para ela, “Chico teve a percepção que a floresta tinha um valor que nem o estado, nem a academia prestava atenção. O seu legado é que essas ideias viraram políticas públicas”. O tamanho da batalha enfrentada pelos seringueiros entre as décadas de 1970 e 1980, pode ser mensurada pelos números que o líder citou em sua palestra: mais de 10 mil famílias que estavam vivendo em 60 mil hectares foram afetadas. Na região do Alto Acre, mais de 180 mil árvores de seringueiras e 80 mil castanheiras foram destruídas pelo fogo e desmatamento.

*A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros – Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 39-59, jul./dez. 2008. Editora UFPR

Ir para o topo