Acre tem um dos mais conceituados sistemas de monitoramento de eventos hidrometeorológicos da Amazônia

Autor: Juliana Carla

Foto: Sérgio Vale

A Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais (CEdGRA) se reúne, anualmente, em oficinas de trabalho (Pré-seca e Pré-cheia) com os representantes institucionais ligados às questões ambientais no estado, para discutir as condições climáticas e previsões de tempo, antes do período das secas e também das chuvas, em função dos extremos climáticos enfrentados na região.

Em tempos de mudanças climáticas, é importante saber qual fenômeno global está atuando e quais as condições de tempo previstas, especialmente no inverno amazônico, que tem afetado o Acre, com inundações frequentes e significativas nos últimos anos. Em dezembro de 2017, a “Pré-cheia” ocorreu em Cruzeiro do Sul e em Rio Branco e pôde contar com a participação de parceiros importantes, que normalmente apoiam o Acre no monitoramento hidrometeorológico: o Serviço de Proteção da Amazônia (Sipam) e o CPRM/PV – Serviço Geológico do Brasil. Na ocasião, foram discutidos os principais sistemas que estão influenciando o tempo e o clima na Amazônia de modo geral e no Acre em particular.

Segundo os especialistas, a situação ora vigente se iniciou durante os meses de setembro e outubro de 2017, quando houve a intensificação do resfriamento do Oceano Pacífico Equatorial. Entre o fim de outubro e o começo de novembro de 2017, ocorreu o acoplamento das condições oceânicas e atmosféricas que possibilitaram o surgimento do fenômeno La Niña, que traz chuva para a região. Embora de fraca intensidade, a combinação do La Niña com outros sistemas tem trazido chuvas localizadas e de forte intensidade, afetando o Acre de forma inesperada e como nunca antes observado, através das chuvas convectivas, influenciadas por diferenças de temperatura e pressão em altitudes, extrapolando a capacidade de previsão e monitoramento das instituições.

O sistema de monitoramento, implantado no Governo Tião Viana foi considerado pelos diretores da ANA como o melhor da região amazônica, graças a rede de colaboradores que nos ajudam a identificar os dados e a gerar informações de monitoramento e previsões de eventos climáticos

Edegard de Deus
Secretário Estadual de Meio Ambiente

O governo do Estado, por meio da Secretaria de Meio Ambiente (Sema), criou a Unidade de Situação de Monitoramento Hidrometereológico, que diariamente realiza o monitoramento da chuva e o nível dos principais rios acreanos, contribuindo para direcionar as ações de resposta das defesas civis. O sistema de monitoramento hidrometeorológico do Acre, instalado em parceria com a Agência Nacional de Água (Anac), conta com 32 plataformas de coleta de dados (PCDs) e tem permitido, desde de 2012, a emissão de alertas de chuvas e acompanhamento da dinâmica dos grandes rios, com a emissão diária de boletins do tempo e relatórios hidrometeorológicos, distribuídos paras as 42 instituições que fazem parte da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais – CEGdRA e interessados, totalizando mais de 300 e-mail emitidos diariamente – podendo também ser acessados no site da Secretaria de Estado de Meio Ambiente – Sema e do Instituto de Mudanças Climáticas.

Infelizmente, o sistema não tem condições de emitir alertas de elevação dos igarapés, principalmente em função da impossibilidade de instalação de PCDs em tantos sistemas, dada a densa rede hidrográfica do estado.

De acordo com Vera Reis, Diretora Técnica do IMC apesar de as previsões indicarem baixo risco de inundação no estado, deve ser considerado, que de meados de novembro de 2017 até fevereiro de 2018, o acumulado de chuvas no Leste do estado está em torno de 500 mm, significando que a saturação do solo está muito elevada, consequentemente toda chuva vira vazão, elevando o nível dos rios e igarapés no estado, deixando os órgãos de proteção e defesa civil em alerta. Isso ocorreu em 26 de dezembro, na área de influência da empresa Peixes da Amazônia, entre os dias 13 e 14 de fevereiro na região central de Rio Branco, e mais recentemente em Brasileia, afetando sobremaneira as populações moradoras no entorno dos igarapés.

É necessário trabalhar através da educação ambiental, a percepção do risco junto aos moradores do entorno dessas regiões

Vera Reis
Diretora Técnica do IMC

Um outro produto da Unidade de Situação que poderá orientar as defesas civis municipais no acompanhamento das inundações, especialmente onde não há plataformas, é o mapa de espacialização e quantificação das chuvas de 24 horas – aquela que normalmente contribui para elevar rios e igarapés. O mapa é emitido diariamente nos relatórios e boletins e enviado para os grupos de whatApps – é só uma questão de hábito de analisar o referido mapa, que qualquer cidadão, através das cores nele indicadas, poderá saber se a área do igarapé tem ou não risco de alagação. Na verdade precisamos todos desenvolver maior percepção do risco, pois com perda da capacidade de previsibilidade, teremos que lidar com a situação com mais criatividade, em especial desenvolvendo mecanismos de adaptação que nos permitam conviver com a nova realidade climática estabelecida, em função das mudanças climáticas globais – sinaliza Vera Reis.

Dados da Defesa Civil de Rio Branco apontam que todos os igarapés que cortam a região urbana da cidade ficaram em situação de enxurrada de 13 para 14/02. Para a diretora técnica do IMC, Vera Reis, o assoreamento dos córregos e igarapés está também entre as principais causas dos transbordamentos.

Estamos vivendo momentos de extremos climáticos, com chuvas fortes e concentradas, o que tem exigido um trabalho integrado através de uma força tarefa estabelecida entre o Estado e o Município de Rio Branco, para evitar quaisquer prejuízos a população

Magaly Medeiros
Diretora-presidente do IMC

A comissão

Desde os eventos ambientais adversos de 2005, cuja seca que atingiu várias cidades acreanas, tem havido uma crescente preocupação do Governo, que reconheceu a necessidade de articulação multissetorial para o enfrentamento dos desastres naturais. Dessa forma, priorizou-se o trabalho através da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais (CEGdRA), buscando evidenciar a interação entres os diversos órgãos e o encadeamento de suas ações para a implementação da Gestão de Risco como política pública no Estado do Acre, no sentido de facilitar a tomada de decisão e a resposta rápida frente aos eventos extremos.

A Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais – CEGdRA, criada através do Decreto 3.415/2008, tem como objetivos principais: propor e avaliar programas, ações e atividades voltadas para a prevenção, controle, adaptação e mitigação dos impactos decorrentes de queimadas, secas, desmatamentos, enchentes, acidentes com produtos químicos perigosos e outros eventos de riscos à população e ao meio ambiente, decorrentes das atividades antrópicas e dos efeitos das mudanças ambientais globais; elaborar, implementar e gerenciar o Plano Estadual de Gestão de Riscos Ambientais; promover a educação, a capacitação e a divulgação a respeito da gestão de riscos ambientais e mecanismos para alimentar, atualizar e disponibilizar as informações sobre a gestão de riscos no Estado.

A Unidade de Situação de Monitoramento de Eventos Hidrometeorológicos é o centro operacional da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais e responsável pelo monitoramento hidrometeorológico do estado do Acre, com o objetivo de identificar eventos extremos, através do monitoramento diário de tempo, clima, níveis dos principais rios, risco de fogo e focos de calor em todo o território do Acre.

A Unidade de Situação tem uma gestão compartilhada entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente – Sema, Fundação de Tecnologia do Estado do Acre – Funtac, o Instituto de Mudanças Climáticas – IMC, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Acre – CBMAC e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil – Cedec, além colaboradores e membros da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais – CEGdRA., hoje 42 instituições dos níveis federal, estadual, municipal e ONGs.

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